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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Chomsky descreve política interna americana em duas palavras: 'Pura Selvageria'


O renomado ativista e intelectual Noam Chomsky resumiu, em uma entrevista, a política interna americana com apenas duas palavras: 'pura selvageria.'


jeanbaptisteparis
Enquanto o Congresso decide, essa semana, se vai reinstituir um auxílio desemprego de emergência para milhões de americanos ou se aprovará as negociações de uma lei agrícola que cortaria bilhões dos programas de vale-refeição, o renomado ativista e intelectual Noam Chomsky resumiu, em uma entrevista, a política interna americana com apenas duas palavras: ‘pura selvageria.’
 
“A recusa de proporcionar um padrão de vida mínimo para as pessoas que encontram-se nessa monstruosidade – isso é pura selvageria.”, disse Chomsky durante uma entrevista com a HuffPost Live. “Não há outro jeito de dizer.”
 
O Washington Post relatou que as atuais negociações da lei agrícola estão pedindo, para a próxima década, a eliminação de $9 bilhões no fundo para o vale-refeição pelo Programa de Assistência Suplementar Nutricional (SNAP), “de acordo com diversos assessores que estão familiarizados com as negociações e que não são autorizados a falar publicamente sobre os detalhes.”
 
As mudanças iriam diminuir as assistências para, no mínimo, 800.000 famílias, com cortes de até $90 por mês. “Essa é a última semana de feira do mês.”, disse a senadora Kirsten Gillibrand para o Washington Post.
 
Os Republicanos haviam, originalmente, pedido cortes de $40 bilhões e Democratas, cortes de $4 bilhões. A negociação, que tem uma conclusão esperada para a próxima semana, só é apresentada dois meses depois que os legisladores americanos permitiram um estímulo separado para que a SNAP chegasse ao fim, cortando uma parcela universal de $5 bilhões no financiamento, que arrancou a assistência alimentícia de $47 milhões de beneficiários do vale-refeição, sendo 49% deles crianças.
 
 
Enquanto isso, mês passado, o Congresso acabou com o auxílio desemprego emergencial de longo prazo para 1.3 milhões de americanos, um “salvador de vidas” para muitos que estavam procurando por empregos por um longo período de tempo e dependiam desses benefícios para sobreviver.
 
 
Na terça, o Senado, sem muito compromisso, passou uma votação para promover a lei que reinstaura os auxílios desemprego. Mas mesmo que essa lei seja aprovada no Senado, irá enfrentar forte oposição quando chegar na casa dos representantes republicanos.
 
“Desigualdade tem sido um sério problema por muito tempo,” disse Chomsky. “A desigualdade, agora, está em um nível nunca antes visto, pelo menos, desde 1920... ou até mais antigamente. Isso é muito grave.”
 
Qualquer crescimento nos últimos anos foi para os 2% mais ricos da população. Disse Chomsky, adicionando que uma grande parte da população está vivendo abaixo da linha da pobreza, enquanto que no topo da sociedade, os lucros estão crescendo para os ricos.
 
 
Contudo, os bloqueios impostos para os programas de serviço público, que muitos dizem ser essenciais para os necessitados nos Estados Unidos, não tem “nada a ver com maçãs podres no Congresso,” disse Chomsky ao HuffPost Live. “São problemas profundamente estruturais que tem conexão com o assalto neoliberal à população, não só americana mas mundial, que tem ocorrido na geração passada. Algumas áreas conseguiram escapar, mas ele se espalhou.”
 
Chomsky disse também:
 
Anos atrás era costume dizer que os Estados Unidos é um país de um partido – o partido do negócio – com duas facções, Democratas e Republicanos. Isso não é mais verdade. Ainda é um país de um partido – o partido do negócio – mas só com uma facção. E não é a Democrata, são os Republicanos moderados. Os chamados Novos Democratas, que são a força dominante no partido Democrático, são o que eram os Republicanos Moderados décadas atrás. E o resto do partido Republicano tem só flutuado para fora espectro.
 
Tradução de Isabela Palhares

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Opera Mundi - "A Grécia não é só ódio e discriminação. É violência também", diz imigrante

Nascida no Kuwait, mas de origem síria, Hala usa o hijab, o que a torna um alvo fácil para membros do partido neonazista

Hala Akari, de 40 anos, é parte do conselho de integração de imigrantes da prefeitura de Atenas. Há 22 anos na Grécia, dona de um grego fluente e sem sotaque, ela lembra com carinho a chegada ao país, mas sente calafrios ao pensar nas transformações dos últimos dois anos, decorrentes da crise econômica. Hoje, sofre racismo diariamente, algo impensável para alguém que teve o pai ameaçado de deportação e, curiosamente, recebeu ajuda de uma então generosa polícia grega.



Nascida no Kuwait, mas de origem síria, Hala usa o hijab, o que a torna um alvo fácil para membros do partido neonazista Aurora Dourada. Ela relata abertamente o terror causado pela incursão de homens vestidos de preto, característica do traje do grupo, em bairros de imigrantes.

Apesar de já ter reportado casos de violência e racismo, nunca ouviu uma resposta convincente do corpo político grego. Pelo contrário. Percebeu que os casos eram tratados como “isolados”, pouco significativos, e que a polícia grega, alinhada com o Aurora Dourada, não é mais a mesma.
Roberto Almeida/Opera Mundi

Hala Akari, em Atenas: "não temos apenas ódio e discriminação na Grécia, temos violência também"

Em uma manhã de novembro, Hala conversou durante uma hora com Opera Mundi em Keramikos, estação de trem no oeste de Atenas. Seu maior desejo, mesmo após duas décadas na Grécia, é abandonar o país. “Meu trabalho ficou impraticável”, disse.

Opera Mundi: Você diz que imigrantes que estão na Grécia há mais de 20 anos decidiram deixar o país?
Hala Akari: Sim. Pessoas que tinham seus trabalhos, que são fluentes em grego, estão indo para o exterior. Alguns voltam para seus países. Outros escolhem ir para países do norte europeu, onde a situação é melhor e conseguir trabalho é mais fácil. Alguns deles, muitos sírios, tentam asilo, já que não podem voltar para casa por causa da guerra. A Grécia está perdendo essas pessoas.

OM: Por que elas estão indo embora?
HK: Por causa da crise social. Racismo. Não estamos falando apenas do partido de extrema-direita [o Aurora Dourada, com contornos neonazistas], estamos falando da sociedade como um todo. Sempre há pessoas que odeiam estrangeiros, mas não dessa forma. A sociedade grega hoje está mudando e entrando nesse caminho, acha os imigrantes um alvo fácil. Como você é diferente, fica fácil dizer que você é a razão da crise. Sabemos que quando há uma crise a discriminação aumenta, mas não assim. Não temos apenas ódio e discriminação na Grécia, temos violência também.

OM: Os casos são relacionados com o Aurora Dourada?
HK: Podemos dizer que começaram com o Aurora Dourada. Temos registrado vários incidentes de violência. São pessoas que usam preto. Sabemos que são do Aurora Dourada, mas às vezes eles não têm o símbolo do partido na roupa, mas em outras sim. E muitas vezes eles enviam mensagens: “Estaremos nas ruas hoje”. Um aviso claro para que os imigrantes não saiam de casa.

OM: Pode dar um exemplo?
HK: Uma amiga minha enviou uma mensagem para mim, alertando para que eu tomasse cuidado. “Em dois bairros, Kipseli e Plati Amerikis, membros do Aurora Dourada estarão nas ruas a partir das sete da noite. Por favor, diga a todos os seus amigos a não ir para lá.” Mas, mais do que isso, todos os dias, depois das sete da noite, eles estão nas ruas, entram em ônibus e tróleis, tiram imigrantes dos veículos e pedem para ver os documentos. Eles não têm direito de fazer isso, mas fazem. Muita gente tem medo deles. Muitas vezes, a polícia sabe, vê, mas não faz nada.

OM: Como o governo tem reagido?
HK: Tentamos por muito tempo, na prefeitura de Atenas, explicar aos políticos que há um perigo real contra imigrantes. Muitos deles [que sofrem com os ataques] são paquistaneses ou dE Bangladesh e, por terem a pele mais escura, são reconhecidos facilmente. Se estiver sozinho, é comum que um grupo de cinco ou seis apareça para espancá-lo. Isso aconteceu e reportamos, mas os políticos diminuem a importância, falam que é um fenômeno pequeno que não precisa de discussão ou legislação. Quando todo o sistema político grego mudou, com deputados apenas em busca de votos, eles mesmos começaram a expressar racismo. Quando eles começaram a falar assim, a sociedade passou a adotar o mesmo discurso sem medo de punição. Se o primeiro-ministro [Antonis Samaras, do Nova Democracia, de centro-direita] fala assim, oras, podemos falar à vontade. Ficou bastante claro há dois anos.

OM: Quando você diz deputados se refere a membros do Aurora Dourada ou de todos os partidos políticos?
HK: Do Nova Democracia, do PASOK [de centro-esquerda]. Não esperávamos ouvir isso do PASOK, mas como era época de eleições, notaram o crescimento da direita e adotaram o mesmo discurso. “Isso não pode continuar. Nossa cidade precisa ser nossa cidade, Atenas não é mais grega...”  Isso mostrou como não estão felizes com imigrantes. Mas ficou difícil mesmo quando vimos que 22 parlamentares do Aurora Dourada haviam sido eleitos. Foi um choque. Quem votou nessas pessoas? Descobrimos que muitos policiais votaram e muitas pessoas que acharam que “limpariam” seus bairros e teriam mais empregos à disposição. Sabe, as pessoas não gostam de ter de pensar muito nas coisas, preferem ver o preto no branco, bom e mau, grego e não-grego. E mesmo quem tiver nacionalidade grega, mas não for nascido na Grécia, deve ir embora e deixar a Grécia para os gregos.

OM: Você já sofreu racismo?
HK: No transporte público é diário. Outro dia eu estava no tróleibus e uma mulher subiu. Ela gritava e empurrava a todos. O veículo estava cheio de imigrantes da Rua Patission. Eu perguntei a ela por que estava empurrando as pessoas. Ela olhou para mim e disse: “Como você se atreve a falar comigo?” Eu respondi que sim. “Vocês são muçulmanas. Era só o que faltava uma muçulmana querer falar.” Ela estava longe e eu percebi que começou a conversar com uma amiga, que muçulmanos isso, muçulmanos aquilo. Eu a chamei para repetir tudo na minha frente. Eu falo grego muito bem, sem sotaque. Em meio a tudo isso, um homem grego começou a gritar com ela. “Não consigo aguentar a loucura de vocês! O que eles [imigrantes] fizeram para você? Eles não fizeram nada! É uma loucura, vocês me envergonham por ser grego.” Ela desceu na parada seguinte.

OM: Então há ainda uma parcela da população que defende os imigrantes.
HK: Sim, vemos que alguns gregos não aceitam o racismo. Mas normalmente você não consegue se defender, principalmente se não fala a língua corretamente. Muita gente prefere descer a ter de ouvir esse tipo de ataque. Muitas vezes vemos motoristas de ônibus dizendo a homens negros para saírem do veículo. Quem iria defendê-lo? A polícia faz com que você se arrependa de ir reportar algum caso de racismo e pedir ajuda. Você não tem direitos.

OM: Como você compara a Grécia de hoje com a Grécia de 22 anos atrás, quando você chegou?
HK: A diferença é muito, muito grande. Quando chegamos, não tínhamos documentos. Não havia legislação específica para imigrantes. Era tudo muito novo para os gregos. Eles começaram a aceitar imigrantes, mas antes eles próprios eram os imigrantes. Quando outros países fecharam as portas, como França e Inglaterra, a única opção era a Grécia. Ficamos sem visto. Se a polícia pegasse, deportava. Mas a sociedade grega era muito carinhosa, e eles nos abraçaram. Éramos diferentes: minha mãe e eu usávamos hijab, eles sabiam que éramos muçulmanos, e mesmo assim nos ajudaram muito no começo a aprender o grego.
Na universidade, os professores eram ótimos e tentaram ajudar muito estudantes imigrantes. Isso que não tínhamos documentos! A polícia chegou a parar meu pai, e quando soube que tinha família na Grécia, ajudaram-no a fugir da fiscalização. Até a polícia era amiga. Agora temos o oposto. Temos documento e alguns direitos, mas a sociedade é muito fria conosco. Eles têm medo. Eles estão distantes. Eu entendo que muitos imigrantes tenham vindo, mas eles precisam saber que isso que está acontecendo não é culpa dos imigrantes. Agora, se você perguntar a eles [imigrantes] se querem ir embora, a primeira coisa que vão dizer é que sim. Só faltam os documentos. Eu já disse que se Atenas quer se ver livre dos imigrantes só precisa dar a eles residência por um mês. E eles irão desaparecer. A Grécia está protegendo as fronteiras de outros países e isso fez dela uma grande prisão.

OM: Há solução?
HK: Acho que o melhor caminho seria dar residência para que possam sair, ou facilitar os trâmites de aplicação por asilo. Se eles conseguirem qualquer tipo de papel, eles podem ir para outros países. Não vou dizer que outros países queiram aceitar essas pessoas, mas eles podem, como Alemanha, Suécia, Dinamarca e Noruega. No Reino Unido é difícil conseguir papéis. Mas, principalmente, não vejo como solução ficar na Grécia.

OM: Como as regras impostas pela Troika afetam a vida dos imigrantes?
HK: Se elas fizerem a vida dos gregos mais difícil, vão complicar a nossa vida em dobro.
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/entrevistas/26144/a+grecia+nao+e+so+odio+e+discriminacao.+e+violencia+tambem+diz+imigrante+.shtml

domingo, 26 de agosto de 2012

Wallerstein: E se não houver saída alguma?



Vemos hoje um apelo político poderoso à “austeridade”. Ela significa, na prática, eliminar direitos (aposentadorias, assistência médica, gastos com educação) e reduzir o papel dos governos na garantia de tais direitos. Porém, se a maioria das pessoas tiver menos, elas gastarão obviamente menos – e quem vende encontrará menos compradores. Portanto, a produção será ainda menos lucrativa e os governos, ainda mais pobres. É um círculo vicioso e não há saída fácil aceitável. Pode significar que não há saída alguma.
Publicado originalmente em português no site Outras Palavras.
     A maior parte dos políticos e dos “especialistas” tem um costume arraigado de prometer tempos melhores à frente, desde que suas políticas sejam adotadas. As dificuldades econômicas globais que vivemos não são exceção, neste quesito. Seja nas discussões sobre o desemprego nos Estados Unidos, os custos alarmantes de financiamento da dívida pública na Europa ou os índices de crescimento subitamente em declínio, na Índia, China e Brasil, expressões de otimismo a médio prazo permanecem na ordem do dia.
     Mas e se não houver motivos para elas? De vez em quando, emerge um pouco de honestidade. Em 7/8, Andrew Ross Sorkin publicou um artigo no New York Times em que oferecia “uma explicação mais direta sobre por que os investidores deixaram as bolsas de valores: elas tornaram-se uma aposta perdedora. Há toda uma geração de investidores que nunca ganhou muito”. Três dias depois, James Mackintosh escreveu algo semelhante no Financial Times: os economistas estão começando a admitir que a Grande Recessão atingiu permanentemente o crescimento… Os investidores estão mais pessimistas”. E, ainda mais importante, o New York Times publicou, em 14/8, reportagem sobre o custo crescente de negociações mais rápidas. Em meio ao artigo, podia-se ler: “[Os investidores] estão desconcertados por um mercado que não ofereceu quase retorno algum na última década, devido às bolhas especulativas e à instabilidade da economia global.
     Quando se constata que muito poucos concentraram montanhas incríveis de dinheiro, pergunta-se: como o mercado de ações pode ter se tornado “perdedor”? Durante muito tempo, o pensamento básico sobre os investimentos afirmava que, a longo prazo, o ganho com ações, corrigido pela inflação, era alto – em especial, mais alto que o dos papéis do Estado (bônus). Esta era a recompensa pelos riscos derivados da grande volatilidade, a curto e médio prazo, das ações. Os cálculos variam, mas em geral admite-se que, no século passado, o retorno das ações foi bem mais alto que o dos bônus, desde, é claro, que a aplicação fosse mantida.
     Não se leva tanto em conta que, no mesmo período de um século, os lucros das ações corresponderam mais ou menos a duas vezes o aumento do PIB – algo que levou alguns analistas a falar num “efeito Ponzi”. Ocorre que os maravilhosos ganhos com ações ocorreram, em grande parte, no período a partir do início dos anos 1970, a era do que é chamado de globalização, neoliberalismo e ou financeirização.
     Mas o que ocorreu de fato, neste período? Deveríamos notar, de início, que o período pós-1970 seguiu-se à época de maior crescimento (por larga margem) na produção, produtividade e mais-valia global, na história do economia-mundo capitalista. É por isso que os franceses chamam este período de trente glorieuses – os trinta anos (1943-1973) gloriosos. Em minha linguagem analítica, foi uma fase A do ciclo Kondratieff. Quem possuía ações neste período deu-se, de fato, muito bem. Assim como os empresários em geral, os trabalhadores assalariados e os governos, no que diz respeito às receitas. Parecia que o capitalismo, como sistema-mundo, teria um poderoso impulso, após a Grande Depressão e as destruições maciças da II Guerra Mundial.
     Porém, tempos tão bons não duraram para sempre, nem poderiam. Por um motivo: a expansão da economia-mundo baseou-se em alguns quase-monopólios, nas chamadas indústrias-líderes. Duraram até serem solapados por competidores que conseguiram, finalmente, entrar no mercado mundial. Competição mais acirrada reduziu os preços (sua virtude), mas também a lucratividade (seu vício). A economia-mundo mergulhou numa longa estaganção nos trinta ou quarenta anos inglórios seguintes (1970s – 2012 e além). Este período foi marcado por endividamento crescente (de quase todo mundo), desemprego global em alta e retirada de muitos investidores (talvez a maior parte) para os títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
     Tais papéis são seguros, ou pelo menos mais seguros, mas não muito lucrativos, exceto para um grupo cada vez menor de bancos e hedge funds que manipularam as operações financeiras em todo o mundo – sem produzir valor algum. Isso nos trouxe aonde estamos: um mundo incrivelmente polarizado, com os salários reais muito abaixo de seus picos nos anos 1970 (mas ainda acima de seus pisos, nos 1940) e as receitas estatais significativamente rebaixadas, também. Uma sequência de “crises da dívida” empobreceu uma sequência de zonas do sistema-mundo. Como resultado, o que chamamos de demanda efetiva contraiu-se em toda parte. É ao que Sorkin se referia, quando afirmou que o mercado de ações já não é atrativo, como fonte de lucros para acumular capital.
     O núcleo do dilema tem a ver com as contraiçẽos centrais do sistema. O que maximiza os ganhos, a curto prazo, para os produtores mais eficientes (margens de lucro ampliadas), oprime os compradores, a longo prazo. À medida em que mais populações e zonas integram-se completamente à economia-mundo, há cada vez menos margem para “ajustes” ou “renovações” – e cada vez mais escolhas impossíveis para investidores, consumidores e governos.
      Lembremos que a taxa de retorno, no século passado, foi o dobro do aumento do PIB. Isso poderia se repetir? É difícil de imaginar – tanto para mim, quanto para a maior parte dos investidores potenciais no mercado. Isso gera as restrições com que nos deparamos todos os dias nos Estados Unidos, Europa e, breve, nas “economias emergentes”. O endividamento é alto demais para se sustentar.
     Por isso, temos, por um lado, um apelo político poderoso à “austeridade”. Ela significa, na prática, eliminar direitos (como aposentadorias, qualidade da assistência médica, gastos com educação) e reduzir o papel dos governos na garantia de tais direitos. Porém, se a maioria das pessoas tiver menos, elas gastarão obviamente menos – e quem vende encontrará menos compradores – ou seja, menor demanda efetiva. Portanto, a produção será ainda menos lucrativa (reduzindo os ganhos com ações); e os governos, ainda mais pobres.
     É um círculo vicioso e não há saída fácil aceitável. Pode significar que não há saída alguma. É algo que alguns de nós chamamos crise estrutural da economia-mundo capitalista. Produz flutuações caóticas (e selvagens) quando o sistema chega a encruzilhadas, e surgem lutas duríssimas sobre que sistema deveria substituir aquele sob o qual vivemos.
     Os políticos e “especialistas” preferem não enfrentar esta realidade e as escolhas que ela impõe. Mesmo um realista, como Sorkin, termina sua análise expressando a esperança que que a economia terá “um impulso”; e a sociedade, “fé a longo prazo”. Se você pensa que será suficiente, posso me oferecer para vender-lhe a Ponte de Brooklin.

domingo, 15 de julho de 2012

Desaceleração Chinesa


PIB da China desacelera para menor nível em três anos

Crescimento no segundo trimestre de 2012 foi de 7,6%

     O PIB da China, a segunda principal economia do mundo, cresceu 7,6% no segundo trimestre de 2012 com relação ao mesmo período do ano passado, a menor taxa trimestral em três anos, segundo informações divulgadas pelo governo chinês.
       O número representa uma desaceleração de cinco décimos sobre o índice de janeiro a março (8,1%) e marca o sexto período consecutivo no qual o crescimento trimestral do país sofre redução.
     No primeiro semestre de 2012, o PIB chinês totalizou 22,7 trilhões de iuanes (US$ 3,55 trilhões), um crescimento anualizado de 7,8%, próximo ao objetivo de alta de 7,5% que o regime comunista marcou para todo este ano.
     O NBS também publicou outros indicadores, como o investimento em ativos fixos, que na primeira metade do ano ascendeu a 15,07 trilhões de iuanes (US$ 2,36 trilhões), um avanço anualizado de 20,4% que é, no entanto, 5,2 pontos percentuais mais baixo que o do mesmo período de 2011.
     Destaque, sobretudo, para a desaceleração do investimento no setor imobiliário, que entre janeiro e junho cresceu a 3,06 trilhões de iuanes (US$ 479 bilhões), um avanço de 16,6% que é quase a metade do registrado há um ano.
     Quanto às vendas no varejo, o principal indicador do consumo, estas ascenderam no primeiro semestre de 2012 a 9,82 trilhões de iuanes (US$ 1,53 trilhão), uma alta anualizada de 14,4% que também representa uma desaceleração, com 2,4 pontos percentuais menos.
     A produção industrial, por sua vez, cresceu 10,5% no primeiro semestre na comparação com o mesmo período de 2011, 3,8 pontos percentuais menos que o avanço entre janeiro e junho do ano passado.
Fonte:  Revista Época   http://revistaepoca.globo.com/Mundo/noticia/2012/07/pib-da-china-desacelera-para-menor-nivel-em-tres-anos.html

domingo, 17 de junho de 2012

Uma tarde no bairro controlado pelos neonazistas em Atenas



Os brutamontes da extrema-direita da Aurora Dourada se encarregaram de semear a ordem segundo seus costumes : zero imigração africana ou magrebina, zero moradores de rua, zero pichações. Não voa uma mosca sem que eles cortem suas asas. Seu reinado se estende desde a Praça Ática até Agios Panteleimonas. A Aurora Dourada fez de Agios Panteleimonas seu trampolim de conquista. Irrompeu no bairro em 2009 e em 2012 já obteve o melhor resultado eleitoral de sua história (15%).
Eduardo Febbro, direto de Atenas
     Atenas - O crepúsculo está em calma. A Aurora Dourada vela pela ordem nesta área central de Atenas onde não restou nem um imigrante nem um indigente das redondezas. A extrema direita grega e seus brutamontes de poucas palavras fizeram do bairro de Agios Panteleimonas (a igreja ortodoxa) seu sítio privado. « É preciso colocar minas terrestres nas fronteiras para que os imigrantes não entrem », diz um tipo enorme que não dá seu nome porque não quer. Mas diz sem rodeios : « tem cara de esquerdista, como teu governo », diz em tom de ameaça.
     Houve uma época em que este perímetro de Atenas era um bairro popular, com crianças que jogavam nas ruas e garantiam uma barulhenta desordem. Já não é mais assim. Os brutamontes da extrema-direita da Aurora Dourada se encarregaram de semear a ordem segundo seus costumes : zero imigração africana ou magrebina, zero moradores de rua, zero pichações. Não voa uma mosca sem que eles cortem suas asas.
     Seu reinado se estende desde a Praça Ática até Agios Panteleimonas. O número 52 da rua Aristomenus ainda carrega as marcas da ação da Aurora Dourada. Em 2010, os valentões do partido de Nikos Michaloliakos queimaram o local onde os imigrantes muçulmanos vinham rezar. A polícia não abriu nenhuma investigação e nenhum vizinho protestou. Esta é a terra da Aurora. Terra grega, como demonstra o ondulante silêncio das bandeiras com as cores nacionais que tremulam nas sacadas.
     A Aurora Dourada obteve nas eleições de maio passado seu melhor resultado : 15% dos votos, o dobro. « Tenham medo, já chegamos », disse Nikos Michaloliakos no dia seguinte. A metodologia dos músculos deu seus frutos. A Aurora Dourada fez de Agios Panteleimonas seu trampolim de conquista. Irrompeu no bairro em 2009 e em 2012 já conseguiu o melhor resultado eleitoral de sua história. Os estrangeiros que ocupavam a zona ou dormiam na esplanada da igreja foram expulsos a golpes. Imigrantes, judeus, maçons, todos são inimigos da nação para este partido fundado por Michaloliakos nos anos 80, logo depois de ter saído da prisão onde cumpriu uma pena (várias na realidade) por atividades subversivas e violência. De modo similar a outros movimentos europeus de ultra-direita, a Aurora Dourada cresceu sob o tema da imigração.
     Em frente da igreja Agios Panteleimonas há um bar de onde os agentes da Alba vigiam a praça. É o seu reino. Os ultras chegaram a ordenar até o fechamento da praça de esportes de Agios Panteleimonas. Por quê ? « Vê-se que você não vive aqui, por isso pergunta essas coisas : porque os negros e os romenos sujos vinham dormir aqui e sujar a praça », disse Kostas, um morador local com claras simpatias pela Alba. A polícia do bairro não interveio. Ela depositou a autoridade nas mãos dos neonazistas. A Grécia tem uma população de 11 milhões de habitantes e há um milhão de imigrantes. Um de cada quatro policiais votou pela Aurora Dourada nas últimas eleições.
     Tudo aconteceu muito rápido para os gregos. Em apenas uma década : o euro, a falsa riqueza, os créditos fáceis, a imigração, a crise e o abismo. Muitos analistas e militantes anti-racistas pensam que o voto a favor dos neonazistas reflete o medo e a incompreensão, muito mais do que uma ideologia.
     Como em todas as partes, Áttica e Agios Panteleimonas têm um anjo : Thanassis Kurkulas, responsável por uma ONG que luta contra o racismo instalada no bairro há cinco anos, Deport Racism. Kurkulas reconhece o perigo que representaria a Aurora Dourada repetir neste domingo os votos de maio passado e ingressar no Parlamento (o que surgiu em 6 de maio nunca se reuniu pelo fracasso em constituir uma maioria de governo). Mas também reconhece que « o imã dos neonazistas é forte : falam contra a Comissão de Bruxelas e contra os imigrantes e isso atrai votos, mas não são votos realmente ideológicos ». A situação é psicodélica : Atenas tem um bairro inteiro onde a autoridade pública, a segurança, é assumida por um partido político e não pelas forças da ordem. Polícia ideológica, sem controle algum. A exibição de músculos dos « agentes » da Aurora Dourada mostra que bem que não se trata de uma encenação ou aparência. Eles pegam, Maltratam. Insultam. Agridem. Estado débil, milícia forte.
     Os vizinhos de Attica ou de Agios Panteleimonas que não aprovam esses métodos têm demasiado medo para intervir. « Seja como for, é inútil. Há uma clara cumplicidade do Estado », diz Vassilis, um morador da rua Aristomenus. O homem recorda que só uma das centenas de agressões ocorridas nos últimos anos deu lugar a um processo. Silêncio. « A delegacia do bairro não tem nem como pagar a luz. Se não estivéssemos nas ruas, isso seria pior que o inferno », diz Kostas.
     As histórias se cruzam nestas ruas com extrema violência. A Grécia padeceu ao extremo sob as garras do nazismo mas hoje vota em mais de 7% em um partido abertamente neonazista. A extrema-direita se alimenta da crise. Em 2010, quando a Grécia já estava em um precipício, Nikos Michaloliakos ganhou um posto de conselheiro municipal de Atenas. Um ano mais trade foi filmado fazendo a saudação nazista, o que lhe valeu o apelido de « Führer ». Ninguém sabe ao certo se as reivindicações de Hitler na televisão ou os excessos cometidos pelos dirigentes da Aurora Dourada depois do resultado de maio passado incrementaram ou, pelo contrário, baixaram seu caudal de votos.
     Dimitir Psarras, um respeitado jornalista grego especialista no tema da extrema-direita – ele vive, aliás, no bairro dos extremistas – lembra que « parece não haver vacina contra o passado ». No essencial, Psarras constata que, como em outros países do Velho Continente, o esquecimento apagou o rosto dos neonazistas para instalá-los no presente com o estatuto de atores políticos determinantes. Dimitri Psarras conhece bem o tema. É autor de uma biografia de Georgios Karatzaferis, o líder de outro partido de extrema direita, LAOS, e há alguns anos revelou como uma juíza da Corte Suprema alimentava um blog violentamente antisemita com um pseudônimo. Segundo Psarras, a extrema-direita faz pesar uma espada de Damocles sobre as sociedades : « com eles sempre se corre o mesmo perigo ». Despertam e alimentam os piores instintos. Além disso, obrigam os demais partidos a adotar os temas da extrema-direita e, quando a crise chega ao máximo, oferece soluções fáceis para pessoas que perderam completamente o rumo ».
      O bairro de Agios Panteleimonas encontrou o seu com o timão da Aurora Dourada. Ofereceu segurança a cidadãos temerosos e a impôs prontamente. A noite cai suavemente, O vento é cálido, convida a um passeio distraído. Mas cada vez há menos siluetas nas ruas. Em algumas zonas do bairro, para caminhar à noite é preciso pedir permissão, peguntar com educação e agradecer com respeito.
Tradução: Katarina Peixoto
FONTE: Carta maior  http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20358